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Palavra do Reitor

O chamado da liberdade
"Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa substância", já disse a escritora francesa Simone de Beauvoir. E é justamente embasada nesse postulado sonegado de milhares de seres humanos é que a Igreja Católica assenta a Campanha da Fraternidade deste ano, lançada na última quarta-feira de cinzas, que tem como objetivo chamar a atenção da humanidade para o tráfico humano em quatro dimensões: o trabalho escravo, o tráfico de órgãos, de mulheres e de crianças. No cartaz, quatro mãos simbolizam cada uma esses problemas, verdadeiras chagas que ainda atormentam a humanidade. O texto bíblico "É para a liberdade que Cristo nos libertou" (conforme escreveu São Paulo aos Gálatas) é o lema da campanha.

Relatório divulgado pela ONU informa que no Brasil o tráfico de pessoas faz 2,5 milhões de vítimas. Trata-se de um negócio altamente lucrativo, pois movimenta cerca de 32 bilhões de dólares ao redor do mundo. Quanto ao trabalho escravo, de acordo com o Relatório de Escravidão Global 2013, publicado em outubro do ano passado pela Fundação Walk Free, o Brasil ainda possui cerca de 170 mil a 217 mil pessoas em situação análoga à escravidão, ocupando o 94º lugar no índice que lista 162 países. O relatório aponta que atualmente no planeta 29 milhões de pessoas vivem em condições de escravidão.

Em nosso país, o maior foco da exploração escrava do ser humano está nas carvoarias, madeireiras e na área da construção civil, além de estar nas lavouras de cana, algodão e soja. Muito já foi feito, a exemplo da adoção das Listas Sujas, compostas por empresários gananciosos e inescrupulosos que auferem suas riquezas à base da exploração da mão de obra alheia. Infelizmente, nosso Estado ainda figura como uma das principais origens de trabalhadores resgatados - dados da Comissão Pastoral da Terra informam que, das 41,6 mil pessoas resgatadas, no período de 1995 a 2011, um percentual de 28,31% era maranhense.
 
Outro ponto da campanha diz respeito ao tráfico de órgãos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 5% dos órgãos utilizados em transplantes provêm do mercado negro, num negócio que movimenta mais de um bilhão de dólares por ano. É a vida humana sendo comercializada na forma mais vil, onde quem pode pagar subjuga o outro a reduzir parte de seu corpo em troca de dinheiro. O mais chocante disso tudo é que há países - China, Bangladesh, Índia - que patrocinam esta barbárie ou aceitam passivamente a prática.
 
Entre as pessoas que são traficadas, as mulheres e crianças formam o grupo mais vulnerável. No caso das mulheres - particularmente aquelas entre 18 e 29 anos -, acrescentem-se duas condições que favorecem o recrutamento enganoso dos traficantes de seres humanos: a pobreza e, quase sempre associada a esta, a baixa escolaridade. Além da exploração sexual, novas formas de abuso têm sido relatadas: mendicância, servidão doméstica, as conhecidas mulas de transporte de drogas e ainda adolescentes enganados com promessas de jogar em clubes internacionais.
 
A liberdade, conforme preconiza o texto sagrado que tematiza a Campanha da Fraternidade, não sugere apenas o aspecto espiritual. Outras passagens correlacionadas são explícitas e diretas em defender a liberdade material conforme expressa o profeta Isaías: "O Espírito do Soberano, o Senhor, está sobre mim, porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros" (cap. 61, vers. 1). Esta mesma fala Jesus reproduzirá, conforme o Evangelista Lucas indica.
 
Um dos méritos da Campanha é retirar o tema do noticiário a que tantas vezes assistimos quase anestesiados, seja pela distância dos fatos, seja - talvez alheios - pela virtualidade com que a notícia nos chega. Assim, a discussão proposta não é mediada pelo fato jornalístico, mas pela crua verdade de que pessoas sofrem o cerceamento de sua liberdade não somente pela grade ou grilhão, como também por maneiras mais vis em que a própria humanidade - especificamente os vitimados - é desconstruída.
 
O que importa a posição de nosso país? Qualquer que seja o número é suficientemente vergonhoso. O que isso diz de nós como sociedade? Sei que não é uma questão de fácil resposta. A questão talvez não seja essa, mas de se perguntar o que podemos fazer a respeito. Quem sabe, para que o tema não seja tão somente um horror ocasional provocado por uma notícia, precisemos fazer o exercício da empatia com o espoliado de seu valor, de sua dignidade, de sua essência humana que habita também em nós. E a solidariedade pressupõe identificação: alguém oprimido nessas condições é como se toda a sociedade também o fosse.
 
Numa de suas falas mais pungentes, Cristo discorre sobre a escolha dos eleitos, e ali, ladeado de temas tão profundos, ele fala sobre um modo de vida que marca cada um de seus irmãos/filhos: "Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me." (Evangelho de Mateus, capítulo 25, versículos 35 e 36).
 

Doutor em Nefrologia, reitor da UFMA, membro do IHGM, da AMM, AMC e AML

Publicado no site da Andifes em 09/03/2014

 
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