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Palavra do Reitor

(A)Deus, minha mãe

A quarta-feira (9) ficará para sempre marcada na minha memória e na de minha família: foi o dia em que Deus escolheu chamar minha mãe, Ivete Caldeira Salgado, para sua morada eterna. Depois de quatro meses lutando contra a doença que lhe mitigou as forças – mas que não lhe tirou o ânimo nem a fé –, ela se despediu deste mundo, deixando um legado de inspiração para todos que tiveram o privilégio de conhecê-la e com ela conviver. Lembrei-me do que disse S. João no livro do Apocalipse (14. 13): “[...] Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os seguem”.

Na terça-feira (8), como se um presságio nos soprasse aos ouvidos, reunimo-nos (esposo, filhos, netos, parentes e amigos) na Igreja dos Remédios celebrando a Deus pela vida dela. Naquele momento, entre cânticos, orações e leituras da Bíblia, proferimos palavras de gratidão e mensagens de fé. Contudo, os céus já estavam em festa para recebê-la. Às duas horas da manhã de quarta-feira, recebemos a notícia. Mamãe já estava no paraíso. No dia seguinte, na mesma igreja, encontramo-nos para velar seu corpo e dar o nosso adeus. Aquela igreja era sua segunda morada: ali, tinha lugar cativo ao lado de suas companheiras de evangelismo. Menos aos domingos, quando ela fazia questão de se sentar ao meu lado para assistirmos à missa, de mãos dadas.

Como descrevê-la? Há tantas palavras... A poetisa Adélia Prado, quando estava prestes a completar 70 anos, escreveu um livro chamado “Quero minha mãe”, no qual histórias da personagem Olímpia mostram uma alegoria de sua própria mãe.  Se os episódios da vida de minha mãe fossem contados em livro, seriam uma rica biografia sobre alguém profundamente apaixonada pela obra de Deus. Durante 54 anos, dedicou-se a uma trajetória de evangelização. Franciscana, não guardava em seu peito nenhuma vaidade. Em seus muitos papéis – esposa, mãe, avó, amiga, serva de Deus –, conservou o âmago da mesma pessoa: cuidadora, mulher de oração, atenta à necessidade dos seus e dos outros. Talvez por isso se identificou tanto com a simplicidade do papa Francisco, de quem era admiradora incondicional.

Lembro que, quando estava próxima de completar 30 anos, ela enfrentou um dos maiores calvários de sua vida. Fora acometida de uma doença terrível. Na época, com os recursos limitados, poucas seriam suas chances de sobreviver. Mas ela creu num milagre. Mesmo fragilizada, nunca deixou de acompanhar as missas e procissões. Numa delas, não resistiu e desmaiou. Recuperada, não desistiu: voltou às suas missões na igreja, com mais vigor e fé.

Outro episódio que me vem à mente foi o do dia em que cheguei à casa dela e a encontrei deitada no chão. Perguntei o porquê daquilo. E ela me respondeu que estava fazendo um sacrifício pela saúde de uma de suas secretárias que estava hospitalizada. À oração, somou-se a ação. Durante os dias em que a moça ficou internada, minha mãe jamais deixou de visitá-la e de prestar-lhe assistência. Poucas pessoas eu conheci na vida com tanta capacidade de doação.

Este ano, quando estive em Cururupu, por ocasião das homenagens ao centenário de Antonio Jorge Dino, levei meus pais comigo. Minha mãe, que nasceu naquela cidade, fez questão de visitar os lugares que ficaram marcados em sua lembrança, como a se despedir de suas origens. Na última vez em que nos falamos, ao vê-la tão debilitada pela doença, perguntei se ela estava sofrendo. Ela me olhou e disse: “Estou, meu filho. Mas se este sofrimento servir para manter minha família unida, não terá sido em vão”. Mesmo naquela hora, o espírito altruísta que habitava o corpo da minha mãe falava mais alto. Era a inteireza de seu caráter. Além de ser mãe de nove filhos – um deles, falecido ainda na infância –, ela era também uma entusiasta da educação. Voltou a estudar depois que já estávamos todos grandes. Formou-se em Desenho, pela UFMA, e em Teologia, e sempre estava às voltas com atividades.

Drummond, em seu poema “Para Sempre”, questiona: “Por que Deus permite/ que as mães vão-se embora?/ Mãe não tem limite/ é tempo sem hora,/ luz que não apaga [...] Morrer acontece/ com o que é breve e passa/ sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade”.

É inegável que a partida de minha mãe deixa um rastro de dor e ausência insubstituível. Porém, conforta-me a certeza de que ela está ao lado de Deus. Como diz o Davi no Salmo 116.15: “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos”. Creio que mamãe receberá de Deus o galardão de uma vida dedicada ao bem e ao Evangelho. O seu corpo partiu, todavia seu exemplo e sua história estarão vivos em cada um de nós para testemunhar a outros a bondade que ela nos legou.  

A esperança de reencontrá-la um dia na eternidade é ratificada pelas benditas palavras de Nosso Senhor no diálogo com Marta, no livro de S. João (11. 25 - 26): Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá”.  Mamãe permanecerá viva no coração de todos aqueles que ela tocou. No seu velório, uma cena curiosa chamou-me a atenção: um rapaz de trajes simples aproximou-se do caixão e, reverente, tirou o chapéu e deu um beijo na testa de minha mãe. Intrigado, perguntei-lhe por que estava fazendo aquilo. Ele respondeu: “Dona Ivete também era minha mãe, pois muitas vezes me deu o que comer”. Fiquei sem palavras, emocionado.

Diante de todo esse relato, quero externar que minha família e eu somos muitíssimo gratos aos amigos que nos animaram com palavras, que nos confortaram com suas orações. Aos membros do Sagrado Coração de Maria, do qual mamãe fazia parte, meu apreço sincero. Aos profissionais de saúde do Hospital Universitário/UFMA, do Sírio Libanês, do AC Camargo (SP) e do São Domingos, nossa dívida de gratidão eterna. Que Deus abençoe a nós todos. Nossos corações estão em paz.

Doutor em Nefrologia, reitor da UFMA, membro do IHGM, ACM e AMC

 

Publicado em O Estado do Maranhão em 13/10/2013

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