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Palavra do Reitor

Corpus Christi: tempo de recordar para valorizar

A semana que se encerrou ontem foi marcada pelo fato de que na quinta-feira, como em todos os anos passados, houve o feriado religioso de Corpus Christi. O Brasil, o maior país de tradição católica portuguesa, continua cultivando o hábito de enfeitar as suas ruas, praças e casas para a procissão alusiva a este feriado. Algumas cidades, especialmente as históricas do interior de Minas Gerais, Goiás e Pernambuco, mantêm autênticas obras de arte nas ruas, realizando procissões com todos os seus rituais e liturgias, na manutenção de um catolicismo devocional secular que atravessa os tempos num verdadeiro congraçamento popular. Arte religiosa sim, porém não desprovida de beleza e expressão viva de uma fé que se renova anualmente num ato individual de cada um. 

Mas poucos sabem a importância de lembrar a data. Corpus Christi é uma expressão latina. Em tradução literal significa: Corpo de Cristo. É um dos pontos altos das comemorações religiosas cristãs, embora, em nossos dias, passe quase despercebida, ainda que carregue em si um significado vital para a fé. De fato, não existiria sentido para fé sem um objeto, neste caso o Corpo de Cristo que, segundo as Escrituras, é o Pão Vivo que desceu do céu (Evangelho segundo S. João 6.51).

A festividade Católica remonta ao século XIII. Iniciou em Liége (Bélgica) e em 1264 foi oficializada no calendário católico sob a determinação do Papa Urbano IV. Desde então, é realizada sempre às quintas-feiras, sessenta dias após a Páscoa. Mas de onde vem esta expressão Corpo de Cristo? Os Evangelhos registram que na quinta-feira – daí a festividade ser comemorada sempre neste dia da semana – Jesus se reuniu com os discípulos para a última ceia. Em dado momento, ele toma o pão partido e o apresenta aos discípulos presentes com as palavras: “Tomai, comei, isto é o meu corpo” (Evangelho segundo S. Marcos 14.22). Este ato, ensinam-nos os Evangelistas e S. Paulo, é ordenança do Nosso Senhor para sua memória (1 Co 11.24,25). Memória à qual voltamos sempre que celebramos a Eucaristia, palavra de origem grega que evoca as ações de graça e de reconhecimento. 

A partilha do pão não apenas nos une, nos irmana e também nos torna participantes do dom da fé e da salvação. O Corpo-Pão é o alimento da alma, o maná que nos dá força para seguir na travessia do grande deserto da vida. Deserto, porém, não é lugar de ruína ou de perda. É lugar de encontro, de silêncio, de construção de uma fé relacional com o Deus que provê cada dia o sustento, a direção e o livramento do mal como nos recorda a oração do Pai Nosso. É espaço de peregrinação desde um lugar de sofrimento para aquele onde se realizará o grande encontro com o Senhor.

É, portanto, no Corpo do Senhor que converge nosso olhar em busca de referência que se torna interna, plena de amor e verdade. Esta não se arroga diante do outro, ela se oferta. O amor é o meio. O Corpo de Cristo nos faz recordar, nós, seres históricos, temporais, que nossa salvação não se dá num vazio, mas mediada pelo Cristo humanizado, aquele que palmilhou estradas, sentiu sede e fome, amou, irou-se, ofereceu-se como Cordeiro em sacrifício. 

São Paulo explica a encarnação por meio de uma frase que contém mais mistério do que nossa mente pode apreender: “Mas esvaziou-se a si mesmo (Cristo), tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;” (Carta aos Filipenses 2:7). Cristo assumiu uma forma, um corpo, assemelhou-se a nós, nisto se completa plenamente o nome que lhe deu o profeta Isaías (7.14): Emanuel, que significa “Deus conosco” ou “Deus está conosco”. 

Celebrar o Corpus Christi é, mesmo num tempo de religiosidades voláteis e circunstanciais ou mesmo de alheamento da fé, um ato de encontro consigo, com o outro, com Deus. Neste momento, devemos estar despidos, numa espécie de desamparo das coisas mundanas e passáveis, e ser apenas reflexo da Graça que é o dom gratuito do Senhor para uma vida plena.

 

Doutor em Nefrologia, reitor da UFMA, membro do IHGM, ACM e AMC

Publicado em O Estado do Maranhão em 10/06/2012

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