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Palavra do Reitor

A benção, meu pai

Poeticamente, o salmista relativiza nossa existência ante o Eterno. Sobre Ele é dito: “Porque mil anos aos teus olhos são como o dia de ontem que passou […]”. Já em relação aos homens, o escritor dos Salmos afirma: “são como um sono; de manhã são como a erva que cresce; de manhã cresce e floresce; à tarde corta-se e seca” (Salmos 90:4-5).

Meu pai viveu 95 anos e, até onde minha memória alcança, foi fiel aos seus princípios, os quais foram inspirados na fé, que lhe supriu nos dias difíceis e que o fortaleceu para tornar os outros mais fortes, especialmente a sua família. Lembro-me de sua devoção por São Benedito, a quem ele atribuía a cura de uma doença. Ele contava que ainda menino herdou esta predileção pelo santo por intermédio de sua mãe, que o levava pela mão para os festejos.

Espirituoso, cordato e amigo dos livros, meu pai também apreciava os versos. Pela sua esposa, nossa saudosa Ivete, a paixão foi descrita da seguinte forma:

“Quando jovem fui querido

Disputado pelas moças

Era muito preferido

Coitadas faziam forças

A Ivete teve êxito

Em seu laço a mim botado

Parece que feitiço foi feito

Para ser seu namorado

Daí o amor virou amor

Tanto assim que vou contar

No meu ouvido, baixinho me disse:

Seu Nato vamos casar

Os olhos azuis que eram

A mim piscaram duas vezes

Atraiu-me por ser bela

Casando em poucos meses”

 

De certo modo, ele foi um homem extraordinário em sua simplicidade. Aceitou a vida como ela se apresentou e respondeu aos seus desafios com coragem. É nisso que se resume o ser especial que ele foi. Todo homem que cuida dos seus é generoso com os outros e consigo mesmo, assim também se pode dizer que todo aquele que cumpre seu papel com dignidade se torna excepcional. 

Tenho saudade dele agora e sei que este sentimento me acompanhará para sempre. Sinto falta de suas palavras, de sua presença e de seu jeito único que conheci tão bem. Por outro lado, sinto também a alegria de ter sido seu filho. Sinto-me grato por sua vida longa que Deus permitiu que todos nós, os filhos, netos e demais familiares pudéssemos desfrutar. Ainda sobre os Salmos, que mencionei no início, há uma passagem que diz: “A duração da nossa vida é de setenta anos; e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, a medida deles é canseira e enfado; pois passa rapidamente, e nós voamos” (Salmos 90:10). Deus foi bondoso com meu pai e lhe permitiu viver muito e sem a canseira e o enfado que a velhice traz; porém, é verdade que o tempo voou. 

Ao fazer uma retrospectiva das minhas primeiras lembranças com ele, vejo que tudo passou tão rápido. O que me consola é que todos nós que temos a fé na promessa divina podemos acreditar que um dia nos veremos outra vez, sem o tempo para limitar, sem a dor da despedida. Em uma das mensagens que recebi por ocasião da partida do meu pai, havia a menção à obra do Padre Mohana, que afirmou que a tristeza pela ausência física se transforma em uma sutil alegria, quando nos deparamos com um homem íntegro, que, ao partir, deixa o legado de uma família digna e honrada.

Agora é hora de dizer adeus, ou até logo, porque também voamos nas asas de um tempo que corre célere. A “seu” Natalino, meu pai, meu beijo, minha admiração. A bênção, meu pai!

Doutor em Nefrologia, reitor da UFMA, membro da AML, do IHGM e da AMM

Publicado em O Estado do MA, em 09/08/2015

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