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Palavra do Reitor

A lição da Copa

Uma avalanche de análises ainda está em curso sobre a Copa. Os ângulos dissecados são os mais variados, mas os preferidos dizem respeito à organização e aos gastos com o evento. Sem esquecer o inacreditável vexame da seleção brasileira, situação esta que ainda será lembrada e discutida por muito tempo. Entendo que essa humilhação não foi simplesmente pelo fato de que o Brasil não venceu a competição, e sim pela impressionante demonstração explícita de desorganização dentro e fora de campo.

Analistas simpáticos ao governo exaltam as recentes pesquisas as quais registram que os estrangeiros avaliaram positivamente a segurança, a proverbial hospitalidade e alegria do brasileiro e, claro, a própria Copa, que, afinal, bateu recordes de público, de assistência televisiva, de lucro, de repercussão nas redes sociais.

Por outro lado, os críticos questionam o propagandeado legado da Copa. Alguns alegam que os gastos, apesar de estratosféricos (dados oficiais apontavam no final de junho que o custo total havia passado dos 28 bilhões de reais, com a possibilidade de aumento desse número, pois muitas obras não tinham sido finalizadas), sofreram os crônicos problemas do investimento brasileiro, isto é, houve um aumento global de 42% em relação ao planejamento inicial. Além disso, vale mencionar que o legado está longe de atender às necessidades reais concernentes à infraestrutura das cidades sedes.

Em cada ano político, espera-se que muitos dos argumentos sejam contaminados e carregados nas tintas, seja para apontar defeitos, seja para exaltar a Copa no Brasil como se não houvesse nada a reparar. Diz a prudência que a verdade dos fatos está em algum ponto médio entre as duas posições. Ao cidadão cabe sim buscar o ponto médio e tentar esclarecê-lo, pois afinal grande parte dos recursos empregados era de natureza pública. Ou seja, as empresas receberam financiamento direto do governo federal e indiretamente do BNDES. Nem é preciso se falar na isenção fiscal escatológica dada à FIFA, privilégio que não existiu nas duas copas anteriores.

As disputas continuarão na guerra eleitoral e, como disse o jornalista norte-americano Boake Carter (cujo pseudônimo é Harold Thomas Henry Carter), neste tipo de debate, como numa guerra real, a primeira vítima é a verdade. O caminho adequado seria, então, avaliar quais lições poderíamos tirar da decepção proveniente da derrota e, a partir disso, desenvolveríamos ações positivas. Muitos devem pensar que o fracasso da seleção brasileira na semifinal foi devido ao contexto histórico que o país vive. Desse modo, será que a seleção brasileira é uma metáfora do Brasil? Ou seja, será que a fragilidade de nossa seleção reflete as fraquezas e as dificuldades da nação brasileira?

Mesmo que as respostas a essas indagações sejam afirmativas, o fundamental é superarmos. Devemos ter a seleção vencedora desta Copa de 2014 como um modelo para a seleção Canarinho e como símbolo de seu próprio país. Sem discutir as razões do resultado devastador por causa das escolhas de seus líderes, a nação alemã arrasada por duas guerras num espaço de 25 anos e dividida após a Segunda Guerra se recuperou e hoje é um exemplo de justiça social, desenvolvimento, educação e democracia.

Todos nós fomos surpreendidos pela incrível organização demonstrada pelo time alemão. O atacante Podolski – em sua página no twitter, na qual antes exaltava a seleção brasileira, o povo brasileiro e para os quais pedia respeito, mesmo depois da nossa derrota vexatória – comentou que: “a vitória é consequência de trabalho. Viemos determinados...”. Esta equipe alemã fez jus ao nome dentro de campo no momento em que mostrou coesão, planejamento, determinação e preocupação, virtudes essas presentes não só nos gramados, mas também na relação com a comunidade brasileira.

Em seis meses, os alemães construíram um centro de treinamento do zero, o que gerou emprego aos moradores de Santa Cruz Cabrália (BA), pois foram contratados apenas trabalhadores locais; presentearam a aldeia Pataxó com 10 mil euros para a compra de um veículo; estabeleceram tratativas de convênio com a cidade, particularmente na área educacional; e se comprometeram a recuperar o campo de futebol da comunidade. Na opinião do cacique Pataxó, mais que bens materiais, os alemães deixaram uma lição de respeito e consideração para toda a comunidade da região.

Planejamento de longo, médio e curtos prazos, recursos aplicados com parcimônia e com qualidade, treinamento, competência, construção de um time – não um grupo em função de qualquer estrela, afinal, futebol é um esporte de equipe – explicam o sucesso dos alemães. Organização não dá espaço para o improviso, para o “jeitinho” e tampouco para o laissez-faire.

Certamente, todo esse trabalho racional e científico é importante para aprimorar uma modalidade esportiva, principalmente quando tudo isso é regado à simpatia e a uma bem montada estrutura de relações públicas. Um fato bastante curioso, o qual pode ser visto como a cereja do bolo, é que há quatro anos a boa imagem do futebol e do escrete alemão é de responsabilidade de Roy Rajber, um jornalista de origem judaica. Tal informação é relevante porque quem conhece a história sabe que no passado houve uma relação difícil entre judeus e alemães. Para reforçar as qualidades dessa seleção germânica, lembremos que, ante a nossa fragorosa derrota, os jogadores foram cavalheiros e não tripudiaram, ao contrário. Diante disso, como não torcer por eles?

O Brasil tem muito que aprender com o exemplo dos campeões da Copa. Nos próximos anos, a seleção brasileira, que vai disputar o mundial de 2018 na Rússia, deverá pôr em prática novas estratégias a fim de trazer o título de hexacampeã para o nosso país. Enquanto isso, investimentos em saúde, educação, segurança e mobilidade urbana também se fazem necessários para que possamos alcançar a excelência que todos merecemos como nação. 

Doutor em Nefrologia, reitor da UFMA, membro do IHGM, da AMM, AMC e AML.

 

Publicado em O Estado do Maranhão em 20/07/2014

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